CIDADE NUA

 

................PARADOXO DA RUA DAS GRAÇAS

...........................................Por Claudio Goncalvess

 

Início de rua; logo á direita, de numero 25. Semi acabada, a laje fria adormecida sobre paredes de tijolos rústicos e cimento grosso; era pra ser uma sala grande,de um sonho maior ainda.

Cheio de cuidados, aquele homem; um eletricista da Companhia de energia elétrica ,se preocupava muito toda vez que escalava um poste qualquer das ruas da cidade, de onde; olhando para as casas chiques pensava sem expressão qualquer em seu rosto suado.

...........”Falta pouco, muito pouco mesmo, pra eu terminar a minha”.

Ali ;na sala semi acabada; ele tinha na mão direita um martelo e, sentado sobre um saco de cimento endurecido, apoiava suas costas em outros três, não menos endurecidos, que contrastavam com restos de materiais que aos poucos foi juntando à obra; remoendo seus pensamentos, enquanto tomava um trago de cachaça barata; pelo gargalo da garrafa transparente.

Com a outra mão ele segurava um forte pedaço de madeira; não muito grande,enquanto a garrafa repousava entre suas pernas. Mais um trago e seus pensamentos o corroíam de novo; agora sobre o carro novo que sonhara colocar em uma garagem que nem sequer saiu do alicerce.

O martelo agora curvava um prego sobre um pequeno pedaço de cano; que pretendia ajustar à madeira. Mais um trago e a garrafa companheira era a única testemunha de suas queixas.

.......“Não fosse aquele acidente".

"Aquele maldito acidente. Aquilo que .acabou com meus sonhos .........e levou tudo que me restava".

........"Tudo que eu tinha, aquele maldito acidente me levou; levou a .família, levou meus sonhos, meu emprego..."

E levou mesmo.

A primeira conquista daquele homem foi o carro novinho em folha que conseguira comprar durante todos aqueles anos de labuta, se dependurando em postes, tomando choques; ali e aqui.

Foi um acidente que ele havia se envolvido e, desde então não conseguíra mais se recuperar; culpado, e assim se sentindo também, gastou até o ultimo centavo cumprindo com suas responsabilidades depois daquele fatídico e lamentável acidente.

Mais um trago na garrafa companheira e, remoendo; lamentava-se sobre sua família. Dela sobrou uma irmã que lhe fazia companhia. Morava com ele na parte de cima da casa de numero 25 da Rua Das Graças, onde seriam os dormitórios da casa; agora adaptada para convivência de duas pessoas.

Mais um trago e, o ultimo prego abraçava aquele seu engenhoso instrumento.

Ele olhava para sua mão e via naquele martelo o prelúdio de sua própria justiça; tomava o ultimo trago daquela garrafa;a sua única companheira daquele dia de acertos de contas.

Sua irmã que estivera fora quase o dia todo, vinha a passos largos e firmes,naquele final de tarde; talvez pensando no jantar para dois.

Quem sabe! pensando em tirar os calçados; um refresco para os pés cansados de tanta andança

Ela e seu irmão, afinal pra quem mais, nem mesmo o cachorro ficou para lhes fazer companhia e degustar os restos.

.........."Ufa!;que dia duro" -pensava ela.

Já podia ver a casa de numero 25, na Rua das Graças e, chegando mais perto percebeu que a sala inacabada estava entre aberta.

............. “Meu irmão deve estar ai dentro”; pensou em voz baixa.

Ela não poderia imaginar que o dia difícil que tivera, seria apenas o paradigma da longa noite que ainda teria de enfrentar. Iria ver ainda aquele cenário macabro.

Seu pobre irmão, sentado sobre aquele saco de cimento; sua mão repousava entre aberta sobre o chão e ainda quase segurava o adormecido martelo, uma engenhoca de madeira, com um pedaço de cano apertado por pregos curvos, deram cabo de sua vida com uma ultima martelada que detonara um enorme cartucho de espingarda novinho em folha. Na outra mão aquele; agora justo cadáver, segurava duas contas de energia elétrica; ambas vencidas, a segunda trazia um aviso de corte de fornecimento marcado para aquela mesma data.

O tempo passou, o bairro cresceu, e ainda há quem guarde as lembranças daquela ironia da Rua das Graças, 25, na CIDADE NUA.

 

Baseada em fatos reais, foram emitidas as identidades desses protagonistas em respeito a suas integridades

Cláudio Goncalvess/documentoISO

Novembro 2007

 

 

 

 

 

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