"O Ato Institucional Nº. “ 5” o AI 5 era ainda um brilho nos olhos daqueles pobres ditadores; o ano? 1966.
Tempos difíceis. No ano seguinte (1967) aquele estranho brilho estaria nos olhos de Arthur da Costa e Silva em um governo que duraria até 31 de agosto de 1969. O pais conheceria e vivenciaria o mais autoritário e abrangente de todos os atos institucionais.
O AI 5 entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968 e se arrastou por dez longos anos.
Meados de junho de1966, um garoto de apenas oito anos se iniciava em seus estudos; já no segundo ano da escola primária se aventurava no mundo da fotografia. Quando vi pela primeira vez uma Asahi Pentax.
A paixão foi instantânea. Jorge; um homem oriental (japonês) de uns trinta anos; talves menos, chegara ao Brasil e, para minha alegria era meu visinho. Falava muito pouco o português; mas o suficiente para perguntar com um sotaque muito engraçado, "como se chama Isso?, e aquilo?”“: apontando com o dedo durante caminhadas que fazíamos juntos pelo bairro de Veleiros ,zona sul da cidade (SP_CAPITAL) -Fotografar com uma maquina dessas, tendo como instrutor um oriental que não falava o português, fotometrar; ou aprender a fotometria, era como acertar na loteria, principalmente por que teria que se revelarem os negativos para ver os resultados. Jorge alguns dias depois me mostrava às fotos e, queria me dizer algo; algo que eu apenas entendia como menos ou mais pelos gestos que fazia.
Assim se passavam os dias. Fácil mesmo era fotografar com a máquina que meu pai havia comprado. muito simples, foco fixo,era só olhar e apertar o botão. Mas havia muito mais a ser mostrado e, isso falava muito mais alto dentro de mim, as fotos, com aquela máquina mais simples não traziam o resultado que eu esperava,ficavam sem graça, meio gozadas; alias eram poucas as fotos que eu poderia fazer, meu pai deixava sempre umas três ou quatro fotos de cada filme que comprava, pra eu fazer e, assim mesmo não era todo mês que comprava filme. Já o Jorge tinha fartura de filmes e parecia querer aprender logo e, eu me saia bem com ele. Sempre companheiro nas andanças diarias e, era eu quem segurava a maquina, me sentindo assim importante, e sempre recompensado com alguns clicks e ainda recebia; depois, as fotografias que fazia, e assim ia aprendendo a exigir da maquina o que realmente queria ver depois de cada click, mesmo sem entender claramente suas explicações, ia cnseguindo evoluir.
Aquele ano de 1966 para mim foi realmente um dos mais difíceis em todos os sentidos, o segundo ano da escola primaria, eu estava para completar, devidos as dificuldades, eu e minha família estávamos no terceiro endereço no mesmo ano, e o ano letivo? Bem; este era o mesmo.
Minha professora; querida, nos estimulava a escrever redações inspiradas em gravuras (recorte de calendário com paisagens) e este sempre era um momento singular de nosso aprendizado naquela época. As gravuras eram sempre muito semelhantes: bucólicas, ingênuas porem; sempre imposta. Lembro-me de certa vez pedir á ela que colocasse algo que fosse atual ou mais real para que escrevêssemos as benditas redações.
Seria a primeira vez que alguém de fora da família veria uma fotografia que eu havia feito; alem de Jorge é claro, e do editor do jornal onde meu pai trabalhava como mecânico de máquinas impressoras, este ultimo pagou ao meu pai por esta foto que nos custou muito caro e, àquele homem do jornal tambem, mas; foi ela;a fotogafia, quem me permitiu ter a primeira cama decente para dormir, comparada a minha cama armada em tres cadeiras juntadas, todas as noites, forrada com as roupas do dia; ainda por serem lavadas.
“Domingo”, foi o nome que dei a foto; na foto a imagem ilustrava realmente o que fazíamos de melhor aos domingos: A pescaria na represa de Guarapiranga e, de volta pra cassa ,saborear os pequenos acaras e tilápias que pegávamos na represa. O que acontecia ao fundo da imagem parecia passar desapercebido, não fosse por olhos atentos e curiósos, que testemunharam aquele terrivel episódio, conceito dos anos difíceis, vividos por muitos daqueles tempos. Ingenuidade; uma imagem como aquela servir de tema de redação, como um dia de domingo com a familia, diante de fatos que não poderiam servir de referencia à realidade de sociedde alguma, que neste ponto ínfimo fingir não ver, siguinificava se defender, se proteger e, seguir em frente.
Finalmente consegui completar o segundo ano primário e, ja fotografava bem melhor, recebi de presente, por ter alcançado o primeiro lugar, um livro de minha professora.O titulo do livro: A trilha da caverna esquecida, com dedicatória e tudo mais. ( Chiesa, Ênio. A Trilha da caverna esquecida. São Paulo: Do Brasil, s. D. 139 p.)
O reservatório de Guarapiranga é responsável pelo abastecimento de grande parte da capital paulista e foi cenário de encontro de corpos (cadáveres) provavelmente produto de desova de execuções sumarias do “Esquadrão da morte” ativo naqueles dias difíceis de anos difíceis.
A foto “DOMINGO” feita em Dois de outubro de 1966 ilustra ao fundo o panorama da represa citada anteriormente onde foram encontrados três corpos masculinos naquele dia; todos eles com as mãos amarradas com arame farpado e, enumeras perfurações. Este foi o único modo que encontrei para fotografar aquele momento que guardo até hoje em minha mente, decobri em um episódio macrabro, o dia que nasceu em mim o foto jornalismo, a busca pela diferença diante dos fatos . A foto foi tema de uma redação que fizemos em classe dias depois de revelada e, é parte de um acervo de mais de cinco mil fotografias feitas ao longo dos anos se se sussederam, parte delas (fotos urbanas) não foram entregues na ocasião de retirá-las do laboratório de revelações, onde meu pai sempre revelava os filmes. Imagens do cotidiano paulista no centro de São Paulo, caminhões da FP, viaturas policiais,muitas peruas Kombis na calçada da barão de Limeira, durante a madrugada carregadas de jornais, soldados do exercito, homens de paletó e gravata, alguns mendigos e poucos camelôs.
Artur da Costa e Silva nasceu em Taquari, RS, no dia 3 de outubro de 1899. Foi eleito presidente da República em eleição indireta pelo Congresso, em três de outubro de 1966, sendo empossado em 15 de março de 1967. Faleceu em 17 de dezembro de 1969 e foi substituído por uma junta militar. O Ato institucional nº. 5 vigorou até 31 de dezembro de 1978.
Quarenta anos depois. Nem das cores, nem de nada sou o mestre. Simplesmente sou o mais antigo e humilde aprendiz.
Claudio Goncalvess
agenciapress/doc.ISO
Dois de outubro de 2007
"Sem linguagem nova não há realidade nova."
( Frases e pensamentos de Glauber Rocha)
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